Seus exames antes da cirurgia: o que pode ser otimizado
Os exames pré-operatórios não servem só para liberar a cirurgia. Eles mostram o que pode ser melhorado antes, com tempo: uma anemia, um potássio baixo, uma infecção que ninguém percebeu ou uma tendência a sangrar que nunca foi estudada.
Anemia: a correção mais importante
Operar com anemia aumenta a chance de transfusão e de complicações. Em cirurgias com perda de sangue prevista, como abdominoplastia e lipo de grandes áreas, a meta é hemoglobina de pelo menos 13 g/dL, para mulheres e homens (consenso internacional de 2017).
- A causa mais comum é falta de ferro, especialmente em mulheres com menstruação intensa e em quem fez cirurgia bariátrica. O exame que confirma é a ferritina (abaixo de 30 ng/mL indica falta de ferro).
- Ferro por via oral funciona quando há tempo, em geral de 6 a 8 semanas. Tomar em dias alternados costuma ser mais bem tolerado.
- Ferro na veia sobe a hemoglobina em 2 a 4 semanas e é a escolha quando a cirurgia está próxima ou o ferro oral não funciona.
- Também se investiga a causa da perda de ferro, para não tratar só o resultado.
Exemplo: mulher de 38 anos, abdominoplastia em 6 semanas, hemoglobina de 11,2 e ferritina de 9. Recebe ferro na veia, repete o hemograma em 3 a 4 semanas e a data é reavaliada se a hemoglobina não subir ou continuar bem abaixo da meta.
Potássio, sódio e rins
- Potássio baixo (abaixo de 3,5) é comum em quem usa diurético e pode causar arritmia na anestesia; corrige-se com reposição antes.
- Potássio alto ou sódio baixo pedem investigar remédios como diuréticos, losartana e antidepressivos.
- A creatinina define a dose de vários remédios e o prazo de suspensão dos anticoagulantes.
Sinais de infecção
A cirurgia eletiva deve ser feita sem infecção ativa. A consulta pergunta e examina:
- febre, tosse, gripe ou dor de garganta recentes;
- infecção urinária com sintomas;
- lesões, espinhas inflamadas ou feridas na pele onde será a incisão;
- dente inflamado ou abscesso.
Quando existe infecção, ela é tratada antes, com antibiótico se for bacteriana, e a cirurgia é remarcada. Gripe ou resfriado com febre ou tosse produtiva também adiam. Depois de COVID, aguardam-se pelo menos 2 semanas, com avaliação; em cirurgia estética, costumo sugerir 7 semanas.
Antibiótico sem infecção não é indicado. Bactéria na urina sem sintomas, por exemplo, não é tratada antes de cirurgia plástica (IDSA 2019). O antibiótico de prevenção, dado na hora da cirurgia, é outra coisa e faz parte do protocolo da equipe.
Coagulação: o que os exames podem revelar
O TP (RNI), o TTPa e a contagem de plaquetas avaliam a coagulação. Mais importante que os números, porém, é a sua história. A consulta pergunta sobre:
- sangramento prolongado depois de extração de dente ou de cirurgia anterior;
- manchas roxas sem motivo, sangramento de gengiva ou do nariz frequente;
- menstruação muito intensa desde jovem;
- parentes com problema de coagulação.
Exame alterado sem explicação não é motivo para operar assim mesmo. O caminho é repetir, investigar a causa e, quando necessário, avaliar em conjunto com o hematologista. Algumas situações:
- Doença de von Willebrand, a alteração hereditária mais comum, muitas vezes descoberta só na hora de uma cirurgia. Tem tratamento: desmopressina ou reposição do fator, planejados com o hematologista.
- Hemofilia e outras deficiências de fatores: reposição do fator antes e depois da cirurgia, em centro preparado.
- Plaquetas baixas: a maioria das cirurgias exige pelo menos 50 mil; peridural e raquianestesia, pelo menos 80 mil. Abaixo disso, investiga-se a causa e planeja-se a correção.
- RNI alto sem anticoagulante: pode indicar falta de vitamina K ou doença do fígado, e a causa é tratada antes.
Exemplo: mulher de 29 anos, mamoplastia, TTPa um pouco alongado. Conta que sangrou dias depois de tirar o siso e tem menstruação intensa. A cirurgia aguarda a avaliação do hematologista; confirmada a doença de von Willebrand, o plano de reposição é feito com ele e a cirurgia acontece com segurança.
Quando fazer a consulta
Para dar tempo de corrigir uma anemia ou investigar um exame, o ideal é 4 a 6 semanas antes em cirurgias grandes, ou no mínimo 15 a 30 dias antes.