C.SBA – 01744/2026 · 15 Mai 2026

GLP-1 & GIP/GLP-1
No Perioperatório

Nota de Atualização da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) em consenso com SBD e ABESO — recomendações para manejo seguro de agonistas GLP-1 e coagonistas GLP-1/GIP em cirurgias eletivas.

EntidadeSBA · SBD · ABESO
Protocolo PROSPEROCRD420250652069
FocoRisco de Broncoaspiração
AbordagemIndividualizada e Multidisciplinar
Contexto & Objetivo

Por que esta nota?

Com o uso crescente de GLP-1 RA (semaglutida, liraglutida, dulaglutida) e coagonistas (tirzepatida), surgiram preocupações sobre retenção gástrica, risco de broncoaspiração e segurança anestésica. A nota esclarece o posicionamento do consenso multiespecialidades frente às evidências mais recentes.

Princípio fundamental

As recomendações não substituem o julgamento clínico individualizado do anestesiologista. A avaliação deve ser multifatorial, em decisão compartilhada com cirurgia e endocrinologia, considerando perfil de risco e contexto de cada caso.

Recomendações Principais
Rec. 1
01

Avaliação Pré-Anestésica Antecipada

  • Todos os pacientes em uso de GLP-1 RA ou coagonistas nos últimos 6 meses
  • Consulta pré-anestésica antes da cirurgia eletiva
  • Planejamento conjunto: Anestesia + Cirurgia + Endocrinologia
  • Elaborar TCLE específico (modelo em anexo)
Rec. 2
02

Manter ou Suspender? — Decisão Individualizada

  • Avaliar custo-benefício da suspensão vs risco de broncoaspiração
  • Considerar técnica anestésica e contexto clínico
  • Discutir expectativas com paciente e equipe multidisciplinar
  • Cirurgias tempo-sensíveis requerem atenção especial
Rec. 3
03

POCUS Gástrico — Permite Manutenção da Medicação

  • Criar fluxo institucional com US de qualidade disponível no CC
  • Realizar no dia da cirurgia, ≥ 1h antes da indução
  • Classificação de Perlas: grau 0/1 = baixo risco → prosseguir
  • Grau 2 ou sólido = alto risco → adiar ou ISR
  • Se POCUS indisponível → seguir recomendação 4
Rec. 4 & 5
04

Suspensão da Medicação

  • Curta ação (liraglutida, lixisenatida): 1 dia
  • Longa ação (semaglutida SC/VO, dulaglutida, tirzepatida): 7 dias
  • Alto risco de broncoaspiração → suspender ≥ 7 dias independentemente da duração
  • Associar POCUS gástrico sempre que disponível
  • Envolver Endocrinologia para ajuste antidiabético e prevenção de hiperglicemia
Rec. 6
06

Preparo Dietético Pré-Operatório

  • Dieta líquida sem resíduos nas 24h anteriores ao procedimento
  • Jejum absoluto de 8–12h antes da anestesia
  • Líquidos permitidos: água, café preto, chá, água de coco filtrada, sucos coados, soluções com glicose/frutose/maltodextrina, SRO
  • Sem evidência robusta de quantos dias pós-suspensão a dieta deixa de ser protetora → individualizar
POCUS Gástrico — Interpretação (Perlas)
Grau 0

Estômago Vazio

Ausência de conteúdo líquido ou sólido no antro gástrico em ambas as posições (supino + lateral direito).
→ BAIXO RISCO. Prosseguir.

Grau 1

Líquido ≤ 1,5 mL/kg

Presença de líquido com volume estimado igual ou inferior a 1,5 mL·kg⁻¹. Conteúdo apenas no decúbito lateral direito.
→ BAIXO RISCO. Prosseguir com segurança.

Grau 2 / Sólido

Alto Risco

Líquido > 1,5 mL·kg⁻¹ ou conteúdo sólido/particulado.
→ ALTO RISCO. Adiar cirurgia eletiva OU realizar ISR (intubação em sequência rápida).

Fatores de Risco para Broncoaspiração
Técnica Anestésica
  • Sedação moderada/profunda sem via aérea avançada (ex.: eletroconvulsoterapia, radiologia intervencionista)
  • Via aérea desprotegida: cabeça imobilizada, decúbito ventral, sedação > 30 min
  • Via aérea difícil prevista
  • Outras situações a critério do anestesiologista
Relacionados ao GLP-1
  • Início recente (< 12 semanas)
  • Dose em escalonamento (últimos 3 meses)
  • Sintomas TGI: náuseas, vômitos, plenitude, refluxo, dispepsia
  • Uso irregular ou sem acompanhamento especializado
  • Atenção: ausência de sintomas NÃO exclui resíduo aumentado
Relacionados ao Paciente
  • HbA1c > 8% ou DM > 8 anos
  • Gastroparesia documentada
  • Cirurgia GI prévia (incluindo bariátrica)
  • EDA prévia com resíduo gástrico
  • Obstrução TGI / Acalásia
  • IMC ≥ 40
  • Uso crônico de opioides, anticolinérgicos, ADT, BCC
  • Disfagia ou doença neurológica (especialmente idosos)
Preparo Pré-Operatório (Todos os Pacientes)

Dieta líquida sem resíduos — 24h antes

💧Água
Café preto (sem leite)
🍵Chá
🥥Água de coco filtrada
🧃Sucos coados/sem polpa
🧪Glicose, frutose, maltodextrina, SRO

Jejum absoluto

08–12hantes da anestesia

Evidência derivada de estudos de preparo para colonoscopia: dieta líquida 24h reduz resíduos gástricos em usuários de GLP-1 RA.

Alinhamento com Guidelines Internacionais
Recomendação SBA/SBD/ABESO 2026 ANZCA 2025 SPAQI 2025 AOA/RCOA 2025 ASA+ASMBS 2025
Suspensão GLP-1 RA Não rotineira se estável >12sem. Seletiva se alto risco. Não recomendada Não recomendada (sem sintomas GI) Não recomendada Seletiva se alto risco (7d longa / 1d curta)
Dieta pré-operatória Líquida 24h + jejum 8–12h Líquida sem resíduo 24h + jejum 6h Líquida sem resíduo 24h + NPO 4h Não detalha Líquida 24h (alto risco)
POCUS Gástrico Recomendado (quando disponível) Recomendado Recomendado Considerar Recomendado
Termo de Consentimento — Pontos-Chave (TCLE)

A SBA disponibiliza modelo de TCLE específico para pacientes em uso de GLP-1/GIP. Os principais compromissos e informações abordados no termo são:

01

Declarar todos os medicamentos em uso (Ozempic, Mounjaro, Rybelsus, Trulicity, Victoza, Saxenda etc.) e sintomas GI presentes.

02

GLP-1 RA retardam esvaziamento gástrico → conteúdo pode persistir mesmo após jejum → risco de aspiração pulmonar.

03

Seguir rigorosamente o jejum e a possível suspensão temporária da medicação conforme orientado.

04

Ciência sobre realização de POCUS gástrico no dia do procedimento e possibilidade de adiamento se estômago não vazio.

05

O adiamento por segurança isenta a equipe de responsabilidade — é medida de proteção do paciente.

06

Risco de broncoaspiração não pode ser completamente eliminado, mesmo cumprindo todas as orientações.

Vai operar e usa GLP-1?

Se você faz uso de Ozempic, Mounjaro, Trulicity, Rybelsus, Victoza, Saxenda ou similar, agende sua avaliação pré-anestésica em Belo Horizonte. Decisão sobre suspender ou manter a medicação deve ser feita com o anestesiologista — não interrompa por conta própria.

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O Que Todo Paciente Usando Ozempic, Wegovy ou Mounjaro Precisa Saber Antes de Uma Cirurgia

Se você usa semaglutida (Ozempic, Wegovy), liraglutida (Saxenda, Victoza), dulaglutida (Trulicity) ou tirzepatida (Mounjaro), existe uma informação crítica que você precisa levar à consulta pré-anestésica: esses medicamentos retardam o esvaziamento gástrico, o que aumenta o risco de broncoaspiração durante a anestesia — mesmo se você seguiu o jejum corretamente.

Por que os agonistas GLP-1 preocupam o anestesiologista?

Em condições normais, o estômago vazio é um pré-requisito de segurança para a anestesia geral. Os agonistas de receptor GLP-1 (GLP-1 RA) e os coagonistas GIP/GLP-1 reduzem a motilidade gástrica, fazendo com que o estômago esvazie mais lentamente — até mesmo após horas de jejum. Isso significa que pode haver conteúdo sólido ou líquido no estômago no momento da indução anestésica, criando risco real de broncoaspiração: a inalação desse conteúdo para os pulmões durante a anestesia, uma complicação potencialmente grave.

Esse risco é independente dos sintomas digestivos. Você pode não sentir náuseas, não ter refluxo, não ter queixas gastrointestinais — e ainda assim ter esvaziamento gástrico retardado. A ausência de sintomas não exclui o risco.

Suspender ou manter? A decisão é individualizada

A Nota de Atualização SBA 2026 — desenvolvida em consenso com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (ABESO) — estabelece que a decisão de suspender ou manter o GLP-1 RA antes da cirurgia deve ser individualizada, levando em conta:

  • O tipo de GLP-1 utilizado (curta ou longa ação) e a dose atual
  • O tempo de uso e se ainda está na fase de escalonamento
  • A presença de sintomas gastrointestinais ativos
  • O tipo de cirurgia e a técnica anestésica planejada
  • O risco metabólico de interromper o tratamento (controle glicêmico, risco cardiovascular)
  • A disponibilidade de POCUS gástrico no centro cirúrgico

Dieta líquida sem resíduos: por que pode ser necessária

Para pacientes em uso de GLP-1 RA que mantêm a medicação ou têm alto risco de esvaziamento retardado, a nota recomenda dieta líquida sem resíduos nas 24 horas anteriores à cirurgia. Essa estratégia reduz a quantidade de conteúdo sólido no estômago e melhora o perfil de segurança anestésica, mesmo sem interromper o medicamento.

Os líquidos liberados nesse período incluem: água, café preto sem leite, chá sem leite, água de coco filtrada, sucos coados sem polpa, e soluções com glicose, frutose, maltodextrina ou soro de reidratação oral. O jejum absoluto (incluindo líquidos) deve ser respeitado nas 6 a 8 horas anteriores à anestesia, conforme orientação do seu anestesiologista.

O que fazer na prática: traga essa informação à consulta

Se você usa qualquer medicamento da classe dos agonistas GLP-1 ou coagonistas GIP/GLP-1, informe o Dr. Thiago Wolf no momento do agendamento e leve à consulta pré-anestésica: o nome comercial e genérico do medicamento, a dose atual, há quanto tempo usa e se tem algum sintoma digestivo. Com essas informações, será possível determinar o protocolo mais seguro para a sua cirurgia — incluindo a necessidade de suspensão, o tempo adequado, o preparo dietético e a estratégia anestésica.